Segunda-feira, 05 de Março de 2012

            Mergulhado num tufo de relva sentia perto de si a doçura do orvalho e por entre gemidos de contentamento esticava as patinhas para a frente e para trás, tentando tocar quanto mais longe o seu comprimento permitisse em tudo o que se deixava cair em torno de si. Cheirando com o seu empertigado nariz o vento da manhã, quedava-se assim a sentir o derreter do orvalho a tocar-lhe nos olhos cegos. Sempre lhe disseram que era coisa que não se fazia, deitar-se pacientemente junto das plantas como se não tivesse como ocupar o dia. Os conhecidos sempre o acharam peculiar, não por gostar tanto de passar o amanhecer languidamente esticado num corredor de rosas, tulipas e malmequeres, mas sim por ter um grande trevo de três folhas desenhado no dorso. Os seus colegas mais maldosos diziam ser a marca da maldição, mas ele sempre soubera que não era maldição alguma possuir tamanho sinal, pois trevos de três folhas eram muito comuns, como poderia então ser maldição, se tudo o que ele sempre quisera fora isso mesmo, ser comum? O sinal, que mais não era que uma ausência de pêlo na zona do dorso, deixava transparecer a sua pele rosada e permitia-lhe sentir os raios do sol, incidindo e mostrando-lhe a sensação única de uma felicidade tranquila.

            Mas, uma vez nascido o dia teria que regressar aos seus túneis de terra, pois era necessário cavar mais um caminho para que a sua família pudesse correr livremente os campos, em busca de novos alimentos. Com os seus bigodes ainda derramando pequenas gotas de orvalho, encaminhou-se calmamente para a sua toca, desejando muito tristemente ser rato. Os ratos com as suas ágeis patas e longas caudas podem pisar livremente a relva, percorrer inúmeros trilhos de terra batida, sem nunca hesitarem ou temerem locais desconhecidos. Os ratos eram corajosos, temerários e conhecedores do mundo, não precisavam de viver por debaixo da terra, construindo túneis para se alimentarem, não eram fugitivos como os toupeiras. Ele próprio se considerava um fugitivo, como poderia não ser? Vivia percorrendo longos corredores escuros, nunca vendo o caminho, palpando e lembrando-se constantemente das paredes por ele construídas, como se não fosse mais do que um mapa geográfico vivo, em vez de um ser de bigodes e de espírito aventureiro. Era uma injustiça não poder sentir na pele os raios de sol, o perfume das flores e o toque da erva molhada, como se essa beleza tivesse cegado à muito os velhas toupeiras, encarcerando-os nas masmorras de uma escuridão e solidão infinitas. 



publicado por Janinha às 17:48
uma boa semana
tenho espreitado,mas não tem escrito muito
bejinhos
luadoceu a 6 de Março de 2012 às 12:01

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