Domingo, 29 de Abril de 2012

Vislumbro lá ao fundo um senhor distinto de mão dada a uma senhora também ela distinta. Cabelos longos e loiros, pintados certamente, pois as raízes são demasiado visíveis para que se caía no engodo de serem loiros os seus cabelos castanhos. De olhos negros, ergue numa mão uma malinha lilás, no dedo vê-se um anel, um anel de noivado. Todo ele sorri, ela sorri ternamente não para ele, mas para o anel que se lhe cintila no anelar direito. Deverá pensar que aquele anel representa um amor mais profundo que o de um abraço pobre e quente. Sorri agora para ele, na certeza de que ele a ama, não sendo necessário amar em demasia, pois tudo o que é em demasia enjoa. Correm para casa, num passo apressado e contínuo, correm em direcção a uma vida de união e felicidade.

Casam numa manhã friorenta. Duas semanas depois ela deita-se lentamente de avental no sofá, sonhando não ter ela olhado em demasia para o cintilar do anel, pois deste saltou-lhe a cola e o brilhante perfurou a canalização perdendo-se eternamente num esgoto de enganos e multiplicidades. Passou um mês desde o início do casamento e a Sra.do brilhante perdido recostou-se na porta do armário dos medicamentos, era a segunda vez que o marido lhe batia, ele prometeu não o voltar a fazer.

Eram nove horas da noite e ela sentiu pela infinitésima vez a palma da mão do seu marido embater-lhe em cheio na face, que de tanto trabalho doméstico, se via assim rosada. A força do embate foi demasiado forte para se conseguir manter de pé, recuou e tropeçou na cadeira. Ele pega-lhe agora pelos longos cabelos de loiro esbatido num grisalho seco, desfere mais um golpe, desta vez na barriga, toda ela sente um retalhar interior que a impele a cuspir sangue, mas demasiado habituado aos maus tratos diários, o estômago, esse, já não lhe presta mais cuidados, deixa-se pois vibrar ao som dos duros golpes que lhe vão dilacerando as entranhas. Ele dissera ontem, ele avisara-a, como pudera ela esquecer? Como? Ele explicou-lhe a razão de o bife de vaca não se cozinhar em demasia, ele explicou-lhe com duras bofetadas, mas ela, que tola, preocupou-se em tentar não sentir o molar esquerdo a desprender-lhe do maxilar e a ribombar ao sabor das tremuras que eram suas e da mão do seu marido. Como se esquecera ela disso? Agora estava a sofrer as consequências de não ser o bife agrado de seu marido, melhor que fosse sola de sapato, pensa entre golpes e safanões, pois se sola de sapato fosse, a razão do seu castigo sempre seria bem menos desprezível e idiota. Grita de dor ao sentir um forte pontapé que a derruba e a estende no chão da cozinha, indefesa. Não consegue mais suportar a dor, implora para que ele a deixe em paz, jura-lhe nunca mais se esquecer das suas indicações, jura que será melhor mulher, como se já não fosse boa o suficiente para a mulher de um monstro. Ele ergue-a novamente, ela fixa os seus olhos negros e inchados nos dele, entre o pouco que consegue distinguir, ela vê, vê a dureza, a crueldade e o prazer que ele sente ao subjugá-la com a força. Ele sorri, entre os dentes observa-se um vazio de sentimento e culpa, um preencher de prazer cruel. Iça-a mais para cima, vira-a de costas e com a força de um touro esmaga-lhe a cara contra a mesa da cozinha, ela sente o estilhaçar do seu nariz, sente o sangue a percorrer-lhe os lábios e o sabor da sua prória desgraça. Quase morta, entregue a um conjunto de hematomas profundos, vê-se violada por cima dessa mesma mesa. Bate-lhe nas nádegas, afasta-lhe as pernas, esfrega-lhe o sexo por entre os glúteos, prepara-se para a matar mais um pouco. De rastos deixa-se cair na laje fria e sente uma tristeza tão profunda e absoluta que se esquece de que o filho estando na sala, ouviu e presenciou tudo aquilo, mas não será a primeira nem a última vez, ele que se vá habituando, pois filho de monstro, monstro é.

Acorda, o marido dorme no sofá entregue aos seus sonhos apaziguadores, ela mais uma vez encosta-se à porta do armário dos medicamentos, antecipando o amanhã, um dia de mais agressões. As promessas, essas, foram-se com a certeza de que o brilhante do anel perfurou a canalização e se perdeu eternamente num esgoto de enganos e multiplicidades.

Repara nos utensílios, estão espalhados por toda a cozinha. Tenta erguer as pernas mas estas representam um peso muito grande para a sua pequena estatura. Tenta novamente, desta vez voltando o tronco e pondo-se de gatas primeiro. Pára. Doí-lhe a cara, toca com a mão esquerda, pois a direita está inchada e dormente, não reconhece os traços, de certo que estará muito feia. Afasta estes pensamentos superficiais, que lhe serviu a beleza senão para a castigar? Tanto a beleza como a ilusão foram as responsáveis pelo seu triste destino. Começa agora a recolher os talheres espalhados pelo chão, misturados com o seu sangue e suor, limpa-os com o avental, não valerá a pena lavar, pois seu sangue e suor já o seu marido provou o gosto, que diferença fará comer com talheres mergulhados nos seus desperdícios fisiológicos? Com certeza que lhe saberá melhor a refeição.

Estaca assustada. Ouve um som, estaca mais silenciosamente, é o seu filho que dorme e sonha. Inútil, não passa de um ser nojento. Odeio-o, como sempre o odiei. Levanta-se, guarda os talheres semi-limpos. Enquanto os coloca um por um nos devidos lugares observa repousada na bancada uma faca, a nova faca de caça do marido. Que má sorte a sua ele não se ter lembrado de a utilizar, com um único golpe lhe poderia resolver a vida, um único golpe no sítio certo. Olhou-a mais atentamente, sentiu-a ganhar volume nas suas frágeis mãos, mãos de quem mais não faz senão fingir rezar por cada conta do seu terço. O marido ressona de forma audível no sofá. Pensa. Tem medo. Vai deixar de ter medo, está na hora. Caminha lentamente, as pernas, os braços, o tronco, a cara, tudo grita de dor, tudo reclama descanso. Mas não agora, agora não poderá descansar, descansará depois no final. Aproxima-se, mais cautelosamente que nunca, passa pelo marido adormecido, cheira-lhe o hálito, não bebeu, infelizmente nunca bebe. Passa-lhe a faca pelos cabelos, precisam de ser cortados. Arrasta a arma pela manta com a qual o marido se tapa, saboreia o sangue que está prestes a derramar, insolentemente destapa-lhe uma perna, tira-lhe uma meia, também ele deverá sentir o sangue em contacto com a sua pele, a sua pele mais virgem. Prossegue caminho, está agora encostada à cama do filho. Como dorme este porco, reflecte. Num único golpe dilacera-lhe o estômago e puxa-lhe a pele de encontro ao coração. A criança abre muito os olhos, finta-a vencido, esperando quem sabe, que dentro daquele monstro de cara desfigurada não estivesse a sua mãe. Pela primeira vez ela vê, vê a criança que nunca viu, o menino de olhos avelã e cabelo castanho, o menino seu filho. Percebe quase imediatamente que não o odeia, mas que o ama muito, tanto que o prefere ver morto do que cruel como o pai e fraco como a mãe. Brotam-lhe lágrimas das fissuras grotescas a que se chama habitualmente de olhos e fica-se assim a inalar os vapores da alma que de desprende do corpo próximo. Ergue a faca, pinga sangue na almofada e na sua camisa de noite, ergue mais alto a arma. Deita-se encostada ao filho que nunca abraçou e beija-o, sempre com a arma no alto, para além da capacidade humana de controlo.

Na manhã seguinte o marido acorda, tropeça nos inúmeros talheres deixados pelo chão do apartamento. Mais uma vez terá que ensinar as lidas domésticas à perguiçosa da sua mulher, que nem mais bela é. Nunca lhe soube dar prazer, nunca lhe soube fazer nada, como se ele não merecesse, como se não fosse ela uma previligiada por ter tamanha dedicação da sua parte. Grunhindo entre dentes continuou a caminhar. Paralisa-se. Estão mortos. Ela com os seus longos cabelos loiros grisalhos a abraçarem a face do menino e com uma faca espetada no centro da sua caixa torácica e o seu filho, esse, dilacerado do estômago ao coração tendo uma das mãos próxima da mão de sua mãe, coberta pelo comprimento acrescido da manga da camisa de noite. Mortos, pensa.

No dia seguinte é preso por homicídio. Duas mortes, duas vidas destruídas.

Passados dez anos é libertado por bom comportamento, ninguém o emprega, é pois mendigo, pobre coitado, infeliz na sua miséria não merecida. E é nesse momento que segura a rapariga e lhe guarda a moeda na mão, com a sua mão.

Oiço os sinos. São os sinos da minha loucura.



publicado por Janinha às 15:01
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