Sábado, 19 de Maio de 2012

            Continuo a caminhar sem que nada me reste. Estou triste, não apenas pelas imagens e histórias que me são constantemente apresentadas, mas também pela minha própria letargia, demência talvez. Enquanto caminho vejo-o. Um jardim, o meu jardim. Como gosto de jardins, não daqueles minuciosamente cuidados, mas dos outros, daqueles rudemente negligenciados, sem quaisquer cuidados para além dos naturais da vida. Nele sinto-me bem, sinto-me capaz, sinto-me com motivação. Fora dele, sinto-me eu. Inspiro profundamente o ar que me rodeia, apuro sentidos, saboreio o vento. Descalço-me. Preciso de sentir o palpar da vida por debaixo destes pés desnudos que me permitem viver a partir do caminhar, preciso de sentir desesperadamente tudo e no entanto o nada também. Formigam-se as pernas, incide o sol nas linhas dos meus joelhos, puxo as calças o mais para cima possível, puxo até saírem pelas orelhas, continuo a puxar até não sentir que as tenho vestidas. O Sol, o sol, a relva, a relva, as árvores, as árvores, os arbustos, os arbustos, os insectos, os insectos. Abro muito a boca, deixo-a o mais aberta possível, trinco as golfadas de ar, inalo os insectos, saboreio o calor. Deixa-me estar, aqui. Vai-te embora, deixa-me sossegada. Rogo aos céus, veementemente rogo por mais sossego e menos confusão e estranheza.  Deito-me na relva, com a cara virada para baixo, puxo a língua para fora, expulso a saliva que me povoa a boca e que me consporca o sabor da felicidade simples e imediata. Cuspo, cuspo tudo. Uma rede, o meu corpo é uma rede de sensações, cada poro assimila o toque, cada fissura a terra que se nos alimenta por debaixo desta pele. Quem me dera sentir esta paz todos os dias, neste lugar não é necessário inventar nenhum história ou pensamento, basta viver, vivendo apenas.

            Sento-me calmamente na relva, busco no bolso o que anteriormente havia lá estado. Lembro-me de tocar na moeda, dos limites da forma, lembro-me de sentir algo mais que a moeda, algo de textura mole, porém dura. Enfio novamente a mão no bolso. Encontro-o. O cigarro. Puxo do cigarro, cheiro-o como que para testar a sua qualidade, aproximo os lábios, beijo-o. Meto-o na boca, inalo as suas golfadas, respiro o seu fumo. Pressinto junto de mim uma presença e um calor, olho para a direita mas não vejo nada, olho para a esquerda e roça-me na cara uma chama, cheira a cabelos queimados, olho mais para cima, para quem detêm a chama e estaco na expectativa de que se trate de uma novidade, de um ninguém. De rosto anguloso e olhos claros fita-me. Como é bonito, aliás sempre o achei tão mais bonito pela sua combinação de traços únicos, do que pela normalidade das suas acções. Como é bonito. Puxo pelo lume, deixo-o acender o cigarro que me ocupa a boca e inalo profundamente o espírito perdido da ânsia que se satisfez momentaneamente. Senta-se ao meu lado, como todos os dias. Senta-se com as suas longas pernas a penderem para um dos lados. Qual dos lados, nunca eu percebi. Pois não entendo como é capaz alguém de se deixar pender para um dos lados, sem nunca questionar a não existência do equilíbrio aquando da acção, por mais simples que esta se revele ser. Tem uma camisa aos quadrados e a berguilha aberta. Corre a mão pelos cabelos desgrenhados, guarda o isqueiro no bolso e deixa-se a olhar para mim. Olho para ele. Não vejo nada, apenas a sua beleza nos traços incomuns de alguém comum. Estica os grossos dedos de encontro ás minhas bochechas e exclama que hoje o dia será fantástico. Sorrio, gosto da sua inspiração matutina. 



publicado por Janinha às 23:18
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