Sábado, 16 de Abril de 2011

E lembrei-me de ti.

 

Lembro-me de ti novamente, uma e outra vez, procurando não esquecer cada pormenor da tua blusa, do teu penteado, da tua forma estranha de ser. Lembro-me de ti novamente. Tinhas as mãos junto à anca e a certeza fria a caracterizar-te o olhar, um desses olhares que lanças a quem te achas superior na razão e no espírito. Lembro-te dessa tua doçura e logo me mostras a tua frieza, lembro-te que sou uma pessoa, logo no instante seguinte pedes esse teu perdão por cada traço semblante de uma superioridade ocultada por um qualquer sentimento de pudor, de modéstia ou de carinho. Gostarias de não ter essa certeza tão segura de seres tu ser superior, não é assim? E gostaria eu de não o saber. Não te suporto, nunca o consegui, simplesmente porque não entendo a razão de adorar quem quer que seja. Perco-me nos teus defeitos, tens tantos e tão vastos defeitos e por cada um deles relembras mais um dos meus e sinto-me assim, triste. Gostaria de abrigar a minha tristeza numa certeza diferente desta que dita uma vã esperança no entendimento  de um ou outro teu traço facial, mas a realidade é outra. Não te suporto porque apesar de tudo sinto estima por ti e não me suporto por não a conseguir conter, apesar de não a transparecer. Sei que não entendes, nem eu a entendo, mas talvez se trate de uma defesa a uma certeza quase incerta de ser esta uma técnica de defesa tão comum como o abraço. Sei que não é reciproca, mas poucas são as vezes em que semelhantes relações de estima o são, simplesmente as recriamos como tal, baseadas e fundadas numa imaginação fértil de pessoa solitária. Mesmo assim penso que te adoro, apesar de saber que não é mútuo e possivelmente pouco realista este sentimento desesperante de fraqueza humana . Mesmo assim entristeço-me e penso que mais fácil seria se fosse capaz de abraçar.



publicado por Janinha às 22:07
Sábado, 09 de Abril de 2011

      Caminho hesitando na absoluta certeza de que estrada e rio constituem um único elemento de passagem. Agradeço ao sol o calor matinal e espero observar lá ao fundo, para lá das figuras disformes uma presença unitária de um dia ainda por definir. Continuo caminhando, encontrando nos meus pensamentos o refugio dourado de uma série de acontecimentos, cujas finalidades se não adivinhadas serão certamente desconhecidas. Piso meticulosamente a relva que se desenha por debaixo dos meus pés desnudos, preciso de sentir a vida por debaixo do meu corpo, para lá do meu batimento cardíaco e assim acreditar que existe vida neste meu cárcere de carne morta. Sei de cor as cores deste jardim devastado pela incoerência da sua beleza e sei de cor os traços crús e reais de uma existência negligenciada. Também em tempos fui trevo de infortúnio, fui trevo de três e unicamente  de três folhinhas apenas, aquela tristeza certa de não pertencer à loucura e fortuna de uns quantos sortudos desse caminho que se faz diante dos meus pés. Estico a perna na lateral, doem-me as conjunturas, as ligações do movimento, a vida que se transfere para dentro d mim corrói-me a junção do andamento, do pé e da perna, sou carne seca e paralítica de um movimento que não pára e de uma existência que não existe. Continuo caminhando e para lá, sim para lá, para lá disso tudo, de tudo aquilo em que penso, existe uma realidade, talvez uma forma de esclarecimento superior, talvez para lá, sim para lá, para lá disso tudo que finjo ver existe uma forma, talvez uma forma de realidade e talvez para lá, sim para lá, para lá disso existo eu, forma sonâmbula de um corpo por acordar. Amanhecer...



publicado por Janinha às 23:05
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