Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Calei a voz que se ouvia dentro de mim.

 

Calei-a como se calam aqueles que narram as intempéries de uma vida toldada pelas incontáveis resignações, pelas incontáveis advertências que de nada servem a quem sonha.

 

Calei-a novamente em silêncio, na ânsia de a ouvir mais clara, mais ensurcedoramente esclaredora.

 

Aguardei por fim, calara-se finalmente.

 

          Que voz tão profundamente monocórdica, repete e repete as mesmas afirmações, ora devagar, ora rapidamente e deixa-se assim como um CD que se vê irremediavelmente riscado. Repete e repete, segundos, minutos e dias. Mas que pérfida existência a minha...

 

          Uma mulher chega a casa. Deolinda se chama ela. Nunca conheci nome mais atroz e teimosamente português. Antes achava-o desumanamente feio e antiquado, tinha vergonha de dizer o seu nome, o simples facto de ser minha mãe bastava para findar inícios perigosos de conversas intrusivas na intimidade de quem as conta. De cabelos e olhos castanhos, era portuguesinha de gema. Exibia um porte frágil, umas costas arqueadas pelos anos a transportar caixas de fruta e de comércios variados. Parecia isso mesmo, uma figura disforme e maltratada, uma figura calejada  e metamorfoseada pelos quarenta anos de trabalho físico exigente e era pois na sua essência purificada de contaminações intelectuais excessivas. De avental posto em torno da cintura, declamava em voz de poeta inúmeras “boas tardes” por cada uma das vizinhas, que de tão ocupadas pelas lides domésticas se encontravam  a teimar com uma qualquer mancha solitária numa janela curiosamente colocada na posição mais frontal da denominada construção. Deolinda fingia como sempre, fingia o necessário dependendo da situação, aliás aprendera a fingir desde cedo. A sua mãe, Maria Rosa ensinara-a bem, aliás bem de mais. Se havia coisa que Deolinda aprendera fora a utilidade da mentira. Uma mentira bem contada nasce, cresce e vive despreocupadamente no seio da comunidade até ao dia em que morre não pela descoberta da sua existência, mas sim pelo seu esquecimento, tanto por parte de quem a ouviu, como de quem a contou. Ah, se ao menos a mentira fosse considerada pelo que realmente é, uma fatídica incapacidade humana de controlar o nível de interesse colocado numa acção que se quer ver estupidamente renegada a títulos de desinteresse generalizado por parte dos voluntariosos ouvintes. Pobre coitada, como és negligenciada mentira, como sofres nos braços daqueles que não possuem o dom, és tão mais feliz quando colocada no colo da Deolinda, não é assim? Podes estar descansada, pois se Deolinda existe, Deolinda mente. Nem sempre fora assim, Deolinda antes de desenvolver a denominada consciência social era, sem prolongadas descrições, um papiro de cruéis e sádicas verdades, um manuscrito de inconsequências verbais, uma criança de dotes variados.



publicado por Janinha às 19:33
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