Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

 

        Corro a favor do tempo, corro contigo ao colo. Abro os braços em busca da certeza, do calor da tua vinda. Busco-te enquanto escuto os silêncios do anoitecer. Tal qual ser aturdido pela intensidade da luz, olho em frente e revejo-te por entre as tonturas teatrais de mais um actor do quotidiano. As gotas de chuva atravessam-me a blusa, perfuram-me o crânio, corroem-me as entranhas e ferem ossos, alma e espírito. Teimam em lavar as intempéries de uma existência colerizada pelas incontáveis desistências, pelas inúmeras dúvidas maquinalmente expressas pela cobiça de uma qualquer certeza, que se busca e se perde nas demoradas reflexões.

 

       Nos preâmbulos de um asfalto sombrio e escuro, lavado agora pelas lágrimas do sol que percorrem os gélidos e taciturnos quilómetros de tristeza agastada, recoberto de ácido clorídrico que perfura a pele dos pés desnudos daqueles que nele caminham, encontra-se assim o percurso, circundado por desespero, sangue e pús. Ouvem-se ao de longe os gritos estridentes das árvores selvaticamente arrancadas do seu leito de honra, escutam-se de perto os murmúrios das plantas corroídas pelo monóxido de carbono, sentem-se as garras da natureza humana, dilacerando, despedaçando as vísceras dos sonhos da parca mas ainda existente esperança insana. Desacelero o meu próprio passo, observo por entre as gotas que se teimam a cair desdenhosamente nas minhas pálpebras o meu próprio local, o local escolhido, o local destinado à minha libertação.

 

      Apoio-me no pé desnudo e dilacerado, branco e cadavérico, acabado e jovem. Apoio-me com a força da minha certeza, certeza essa procurada, sofrida, cobiçada. Certeza nunca antes vislumbrada, certeza triste e amarelecida, certeza mal amada, certeza ignobilmente menosprezada. Se tivesse certezas nada disto aconteceria, não me veria nestas situações de dor intermitente, de dor naufragada nas águas frias da impotência. Navio de madeiras duras e impermeáveis, de madeiras torneadas pelas algas apodrecidas e lamacentas, pelas águas salinas de uma inconstância e assertividade atrozes. Se fosse eu ser humano lógico, de hipocrisia reconhecidamente adaptada, se fosse eu uma merda de algibeira, uma gota desta chuva, uma parte do asfalto sombrio e porco, se fosse eu mais que imagem toldada pelo sofrimento de uma existência importada e significativamente valorizada, se fosse eu e apenas eu, talvez por instantes, por ténues segundos acreditasse numa outra alternativa, num analgésico eficaz e menos mortal. Mas não, não acredito em nada, estou confusa, sempre confusa, prefiro não pensar, prefiro não sentir...

 

       Fácil , sempre fácil, apoio-me no pé, dou balanço ao corpo, recupero os sentidos e morro novamente. Levanto-me, percorro o asfalto e mais uma vez apoio-me no pé, balanço o corpo, recupero os sentidos e morro novamente. Morro e morro. Desilusão, arrependimento, sonho, esperança, amor, destino, riqueza, pobreza, nada disso, nada disso levarei comigo. Irei sozinha, morrerei como vivi em vida, numa solidão e confusão mental merecedoras de uma morte cujo limiar de repetibilidade se infere pelas vezes que me balanço na inconsciência de estar a morrer. Balançar-me-ei até deixar de sentir...

 



publicado por Janinha às 01:27
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