Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

 

         Tento mais uma vez,  com o vento da altitude esquartejando-me as faces, salientando-me as amarguras de um anoitecer crivado de expectativa e libertação, tento contorcer as amarras, tento libertar-me desta prisão, desta sensação de privação, desta loucura imensa que se deixa florescer nos lábios e se desintegra pela chuva que cai ininterruptamente percorrendo a imensidão do meu corpo. Nada me liberta, nada finda o esmigalhar destas correntes.

 

        Era ingénua, as correntes nos pulsos estavam lá , mas eu não me importava, vi-as ao acordar, vi-as ao deitar-me. Caminhavam comigo, na hipocrisia de uma vida tão comum e banal, destinada a grandes feitos de consequências encaradas como resultado de uma adaptabilidade necessária a uma legítima tentativa de sobrevivência. Cobria-as com camisolas de manga comprida, enaltecendo-lhes a beleza, procurava adorná-las com efeitos multicolores, com bijutaria  e brilhantinas variadas. Vivia e deixava-me viver, vivia ignorando que o fazia.

 

         As correntes ardem queimando-me a pele,  marcando-me a existência, exigindo-me um esforço doloroso de habituação. Mas estou quase, estou perto, em breve tudo acabará. Enquanto estiver a sobrevoar as águas do Tejo saberei que as amarras que me restringem os movimentos serão com o passar dos segundos quebradas pela certeza da morte, pela primeira certeza encontrada, pela certeza comummente ignorada, quase marginalizada pela importância atribuída ao acto de viver. Serão quebradas, estilhaçadas e engolidas pelas frias águas da minha morte, cairão e jazerão na profundidade do meu próprio espírito, serão finalmente vítimas do meu livre arbítrio. Não serei mais fantoche de fios de arame, fantoche de uma sociedade que se vê irremediavelmente ditada e facultada pelos cérebros mais hipócritas e superficiais do género humano – os outros. Serei eu, indivíduo singular, puro e sincrético, pessoa individualizada, pessoa genuinamente marcada pelo entendimento das suas fraquezas e maquiavelicamente clemente em relação aos seus próprios defeitos. Os outros entenderão que a adaptação exige um preço demasiado elevado, que a adaptação sociológica corrompe-nos enquanto seres de componente complexa e multifacetada. Seremos obrigados a viver na inclinação da maioria, na aceitação do incorrecto, lambendo-lhe as feridas, descupando-lhe as faltas? Assumir a desculpa da sobrevivência como forma de minimizar a nossa própria fraqueza, o nosso próprio lamento comportamental?



publicado por Janinha às 01:37
mais sobre mim
Dezembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO