Terça-feira, 01 de Fevereiro de 2011

           Um tanto hesitante pela rua, lá ia eu pelos preâmbulos obscuros de um dia por renascer. Andava devagar, tão devagar que tropeçava nas longas linhas que tecem o solo do amanhecer. Andava como quem anda sobre gelo quebradiço, andava com a certeza posta longínqua, para lá da noite e do dia. Enrolada no cachecol, de mãos bem frias junto ao corpo acabado de acordar, andava lentamente, tropeçava enquanto fingia andar e deixava-me correr na passagem do tempo. Eram horas. São sempre horas, o tempo nunca se esquece de cumprir as suas duras regras, as suas vontades dementes. Demente, o tempo, demente, o tempo. Se o tempo fosse coisa sã, se o tempo fosse mercadoria de vontades restringidas, não seria demente, aliás não se encontraria na ilusão de se comportar como um louco, sabendo que o seu mestre, o nós, teceria sobre si o mais penoso de todos os castigos, a amargura da impotência fase ao bater dos ponteiros. Tempo e tempo, que coisa feia. São horas, eram horas, agora são horas, mas horas atrasadas. Estou atrasada. Puxo as pernas que cedem por cada passo dado sobre o limiar do fio do amanhecer. Não querem andar rápido, não querem correr, não querem servir este porco e descarado sentido de tempo. As minhas pernasredobram a vontade, redobram a intensidade do frio e ficam-se, mortes, inertes, paralisadas. Puxo pelas calças, puxo pelas meias, puxo pelo ventre, na ideia de solidariedade muscular e nada. Até o meu próprio corpo negligencia-me, ignora-me, contraria-me, tal qual como o tempo. Ao de longe observo a fonte da minha loucura, de toda a minha pressa, lá está. Hesitante na estrada, hesitante no amanhecer, mas certo da crueldade que acabará por exercer sobre mim. Passa junto a mim, passa junto ao meu corpo. Na velocidade intermédia vê-se agora apressadamente à procura do acelerador e surpreende-me com a velocidade máxima.  Passa por mim, toda a minha espinha geme, todos os meus músculos gritam de angústia, todos os meus órgãos choram de despeito, as pernas, essas não, continuam flácidas, mortas e inúteis. Estico a mão bem alto na esperança de interceder no meu fatídico destino, estico bem lá no alto, onde as estrelas deixam de ser estrelas e passam a pontos translúcidos. Estico bem lá no alto, onde o céu reflecte a lua e esta se reflecte sobre si mesma. Estico e deixo lá a mão esticada, na esperança de piedade humana.

                Passa por mim, ignora-me, tal qual como o tempo que não se preocupa em respeitar a minha vontade, também o autocarro não me vê, confuso, tonto, ensonado, passa por mim, passa por mim, junto da minha pequenez acrescida pela minha própria ingenuidade em esticar bem alto, lá no cimo, a minha mão. Tempo e tempo, que coisa feia.

                Procuro o local estratégico no qual todos os dias me sento e sento-me esperando. Olho para a paisagem, como adoro esta paisagem. Vejo montes e campos e campos e montes. Vejo casas e montes, montes e casas. Abro os olhos. Vejo casas e estradas, estradas e ruas cinzentas. Volto a fechar os olhos, agora sim vejo a verdadeira paisagem, os montes e campos tingidos de amarelo, de azul e vermelho, corro fustigada pela falta de ar, pela pressa que não esqueço e deixo-me assim a olhar para o amanhecer, tombada no florescer das suas flores, no acordar do seu encanto, no seio da sua vida. Sorrio e adoro a sua textura, a sua frescura seca, a sua presença de natureza rebelde, o seu encanto imaginário. Agora sim as minhas pernas estão vivas, agora sim sinto-as a emergir do seu sono pesado e penoso, agora sim, ambas restituídas da energia volátil do acordar e postas em posição: livres, vivas e enérgicas.

                Lá vem novamente o meu carrasco, lá ao fundo, vêm hesitando no caminho e certo da crueldade que me fará em breve. Estico a mão, estico não lá no alto, mas cadente junto ao tremer do esforço do braço e lá vem ele, certo de que não me poderá ignorar mais, pelo menos não novamente.

                Entro de uma golfada só e sento-me, o dia será longo.



publicado por Janinha às 21:00
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