Quinta-feira, 03 de Fevereiro de 2011

        Um jardim fustigado pelo tempo, quebrado pelos incontáveis momentos de um tempo que se quer ver passado. Um jardim luxurioso, albergando em si todos os selos de uma viagem imaginada e curiosamente descrita pelos mais inconfundíveis seres rastejantes desse mundo que é deles. Um jardim longínquo e desacreditado, um jardim de  contornos delicados e belíssimos, um jardim fatalmente destinado aos olhos das menos afortunadas ratazanas. De roseiras bravas de meio metro, se vê este jardim circundado. Com os seus espinhos proeminentes e suas pétalas macias, se deixa assim o jardim a quedar-se no abismo do antagonismo natural das coisas. É fácil ser-se belo quando é esse o destino, e mais fácil é ser-se belo quando se espera apenas fealdade de quem se nos desconhece. Com o jardim assim se passou, tudo nele era uma mistura de particularidades grosseiras, disformes e translúcidas. Onde se lhe faltava a cor, se lhe ganhava o brilho, onde se lhe faltava a beleza, se lhe ganhava a originalidade e onde se lhe faltava a ordem, se lhe ganhava a desordem. Tudo em si possuía a beleza do destino e a amargura do despeito daqueles que nele só vêem o que se não quer ver. Das flores, as abelhas tiram o pólen, das sementes tiram os pássaros os ventres da miséria e da terra tira a chuva o seu intento. As ervas, essas sim, tantas e tão belas. Rasteiras, luzidias, amarelecidas pela falta de adoração, se vêem estas sucumbidas a uma maleita de escárnio e comentários afins. Com raízes que derrubam árvores, com raízes que contornam quilómetros de tristeza agastada, com indubitável beleza também as ervas daninhas se encontram no mar de tamanha controvérsia visual. Ervas grandes, pequenas e intermédias, ervas mortas, gastas e jovens. Ervas e mais ervas enaltecendo a beleza das inconfundíveis flores que se teimam a derrubar a beleza inerente à desordem natural das coisas. Flores roxas, rosas, amarelas e vermelhas, flores belas, menos belas e mais belas, flores singulares, flores comuns. Ervas daninhas sois vós a beleza das flores e a arrogância escondida do entendimento do teu salvo conduto. Lá ao fundo distingo a vinda dos teus tão incrédulos amigos. Vêm rápido, vêm correndo e tacteando o chão de musgo que se constrói sobre ti, vasto jardim. Musgo e musgo, magia e musgo, musgo e magia. E és tu o toque final musgo, a incoerência irritante que faz de ti jardim essa beleza feia. És o acolchoado desespero de uma beleza sem fim, de um jardim que de tão feio se tornou belo. E continuam a chegar os teus amigos, rápidos, determinados, afáveis. São eles os adoradores do teu reino, são eles o suporte da tua vida, são eles os caracóis, os reis do teu reino. E és tu jardim andrajoso, o rei do meu reino.



publicado por Janinha às 20:34
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