Sexta-feira, 04 de Fevereiro de 2011

               

Não desistas de mim

 

                Peço-te demoradamente que não desistas de mim, por mais complicado e incoerente que te soe este pedido, não desistas de mim. Não desistas da certeza de que em mim existe algo mais que confusão, amargura e pesar. Pesar de uma vida de desistências constantes e seculares, pesar de um momento que se aguarda e que se teima a pertencer a esse futuro ditador de vontades. Acredita que chegarei onde a visão nítida cede o lugar à visão turva e onde os polegares substituem as formas vivas das figuras que pertencem bem lá, para lá do futuro. Acredita que existe vitória em mim, não desistas de mim. Acredita na alegria dos passos que dou em direcção a ti, acredita no temor deste passado que se me persegue mais que a ideia de um futuro inacessível. Passado repleto de acontecimentos felizes e  fatalmente lançado nas chamas da incontornável sede de esperança. Esperança perdida nas pertenças loucas de uma respiração contínua, esperança dilacerada pela própria noção de futuro. Deixa-me desistir de ti, deixa-me correr na direcção do fogo e da água, deixa-me pertencer a esta redoma que por fim  nos enclausura certos da nosso livre arbítrio. Chega-te a mim e deixa-te permanecer assim imóvel, um eterno lamento adormecido. És a figura morta e moribunda de uma paixão que em si chamou a dor louca de uma ferida aberta e ulcerada, és figura mitológica que desiste de mim consecutivamente. Não desistas de mim, por mais que o velho to diga, não desistas de mim por mais que a velha to diga e não desistas de mim por mais que eu to diga. Deixa-te permanecer aí, diante do pesar, diante da força dos enfermos e seguro junto à doce loucura que me resguarda da sanidade. Não desistas de mim.



publicado por Janinha às 15:50
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