Terça-feira, 08 de Fevereiro de 2011

 

             Com os grandes e brilhantes olhos salpicados de água salgada e areia,  contemplando o mar que desde de cedo lhe copiava a cor dos seus próprios olhos e memorizando o forte cheiro da maresia, ria descontraidamente uma criança, enquanto o pai a  fazia deslizar pela mais selvagem e incompreensível onda de felicidade. Com os olhos azuis muito vívidos e esbugalhados, gesticulava  efusivamente a menina enquanto o pai  de sorriso aberto e afável se esforçava carinhosamente por mantê-la sã e salva nos seus grandes e protectores braços. Com um vestido ás flores, em que se distinguiam rosas, tulipas, malmequeres e orquídeas e com uns sapatinhos castanhos se encontrava uma outra criança, à escuta, calmamente embrulhada nos seus inúmeros pensamentos. Pensamentos inúteis disseram-lhe tão regularmente os pais, pensamentos estranhos e sujeitos a análise psiquiatra caso assim quisesse continuar. A menina das flores não se responsabilizava por ter estes pensamentos tão pouco comuns, nem pela ténue possibilidade em visitar um psiquiatra, profissionais com nomes proféticos como estes, deverão realmente saber como curar uma menina com a arte do pensar recorrente. Visto não se sentir minimamente  compreendida pelos frios progenitores e mesmo assim procurar desesperadamente o seu agrado, pôs de lado todos os pensamentos, ou mais honestamente, procurou simplesmente disfarçar as feições tradutoras do assustador acto de pensar, deixando-se apática quando a situação assim o exigisse. Assim sim, conseguiu a felicidade de todos, exceptuando a sua, mas como sempre adivinhou, a sua pouco ou nada importava. Mas nesse dia, no dia em que via um pai e uma filha, ambos repletos da mais pura e invejável felicidade, não conseguiu disfarçar e toda a sua expressão traduzia pensamento, loucura, insanidade, incompreensão. Então é assim que um pai trata uma filha? É assim que se ri e que se vive a espontaneidade do momento? Curiosa e simultaneamente assustada pelo próprio entendimento de uma realidade completamente distinta da sua até então, aproximou-se cautelosamente e observou contemplativamente a arte do afecto. Deixou-se assim, perplexa e muda, confusa e desejosa de atenção. Correu rápido, correu até deixar de sentir as pernas como parte integrante da sua fisionomia, combatendo o vento, afastando os longos cabelos dos olhos, correu e correu. Subiu ruas, ruelas e atravessou estradas. Encontrando o pai sentado no sofá a contemplar emotivamente um reality show de meninos prodígio, soube desde logo de que também ele a amava e pela primeira vez a menina das flores sentiu a mesma onda de felicidade incauta e contagiosa de que sofriam pai e filha outrora invejados na zona das praias. Ergueu muito alto os braços e correu, recorrendo ao seu último e derradeiro esforço físico, saltou e abraçou-se com toda a réstia das suas forças a esse cadáver seco a que chamava de pai. O pai com vigorosa pancada de costas impede-a de saltar mais alto, mais profundamente no seu abraço e sem mais forças a menina das flores deita-se plácida e serena no chão ouvindo o pai cuspir a própria raiva: “Porque não és tu normal? Especial como estas crianças? És uma atrasada imprestável, sacana!” 

Não pai, somos ambos sacanas imprestáveis, tu e eu, sangue do mesmo sangue.



publicado por Janinha às 19:24
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