Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

 

 

         Muda de carruagem a cada duas estações. Não tem relógio, há anos que não vê as horas, não precisa, o tempo para ele nunca se demonstrou como um impeditivo de força maior.

         Arrasta-se por dentro da multidão, deambula taciturnamente por entre os diversos perfumes que caracterizam o começo de um novo dia. Serpenteia-se pelos espaços vazios rindo e lendo os rostos, instigando essa raiva muda e feroz típica da pessoa madrugadora.

         Muitos se queixam da indiferença das multidões face às mais ultrajantes condições de necrose humana, mas não ele, cada fibra do seu desengonçado corpo transpira arrogância, elegância e despreendimento. Saber-se mais um, igualando-se de todas as formas às restantes centenas de civis não o incomoda, todo ele se comporta com naturalidade e dignidade, nenhum traço de comiseração grita por vitimização.

       Da mesma forma que aparece, desaparece por entre a azáfama dessa gente cheirosa esquecida, esquecendo-se ele próprio de que não é mais que matéria transparente e solúvel, um perpétuo e mal cheiroso incómodo diurno.

       Estava frio e chuva ou chuva e frio quando dobrou a sua caixa de cartão. Deixou há muito de conseguir distinguir entre esses dois fenómenos climatéricos, não fosse um deles, certo dia, não levar inevitavelmente ao outro. Cuidadosamente dobra em quatro a sua réstia de dignidade humana e guarda-a onde a igualdade tipicamente se guarda, por debaixo do caixote de lixo, bem juntinho da esperança de uma vida melhor. Olha demoradamente para as seus pertences materiais, demora-se no adeus e reflecte na possibilidade de roubo, como se tudo o que tivesse não passasse de merda comparativamente com tudo o que poderia ter tido. Mas a merda é dele, afirma-o com o olhar, enquanto estica e cobre a bainha das calças esfarrapadas com a parte de cima das meias. Talvez se esteja a perder no cruel sonho de que hoje, apenas hoje, as sandálias cedam o seu lugar a um par de galochas competentes e que talvez ou meio talvez, os pés não se transformem naquela papa gélida de lama e líquido fétido que escorre e inunda quem perto do lixo ajeita as peúgas. Repentinamente, como se todos os anteriores pensamentos se esbatessem num piscar de olhos, fixa calmamente o nascer do dia, encostando as mãos à barba e sentindo a erosão sofrida pela passagem de mais uma noite fria. Encarando-se as inúmeras rugas que se lhe figuram em torno dos olhos, depreende-se que também ele sentiu o frio medonho de mais uma noite ao relento. Noites essas insuportáveis para tantos comuns mortais, mas não para ele, noites semelhantes alimentam o seu olhar, presenteiam a sua mente com uma nova mercadoria de vivências atrozes e singulares. Tudo o que agora se vê no seu rosto são dois buracos negros substituindo a antiga visão, duas dimensões incompreensíveis que tudo sugam e que nada desejam.

    A fome, essa, é cada vez mais privilégio do seu corpo mundano do que propriamente uma necessidade imperativa. Mas vai comendo consoante as oportunidades, consertando os inúmeros buracos no estômago com escassos restos de comida que sequestra pelo caminho. Não inveja, aliás nunca invejou os inúmeros banquetes que tão regularmente presencia aquando das suas passagens pelo Rossio. A comida é regozijo de gente fraca, de gente que ambiciona viver mais um dia desconhecendo a verdadeira essência da oportunidade perdida que já lá vai. Se soubéssemos o que se perde num só dia, não desejaríamos comer novamente, porém é certo e sabido que o segredo reside sempre na ignorância dos factos. E assim se deixa a detestar os estrangeiros, enquanto estes chafurdam nos seus pratos fartos em comida e gordura. Nunca gostou de estrangeiros, explica-nos o seu escarro lançado contra as mesas que compõem a esplanada. Quando passa por eles esperneia energicamente e grita bem alto os seus perjúrios num inglês impecável. Mentira? Puramente digo a verdade. Pisca consecutivamente os olhos pestanudos e estremece muito o lábio superior, manifestando eloquentemente o domínio dessa língua universal, visto que sabe que actualmente não existe O Portugal mas sim A União Europeia, logo não existe O português mas sim O inglês. Ele que não passa de um vigilante à sua própria merda entende o poder da dialéctica internacionalizada, por isso, quanto mais não entenderão esses mesmos escórias que compõem o resto do mundo, questiona-se entre ranho e expectoração pendente. Gesticula os dedos segundo uma ordem musical e entre grunhidos e mais cuspidelas queda-se na comparação catársica entre a nossa merda e a merda que é deles. Na rude compreensão de que não é da merda vizinha que gostamos mais, mas sim dessa certeza empírica que prediz que a nossa rica merdinha é fatidicamente pior que as restantes, mesmo que as ditas restantes sejam purulentas, contagiosas e líquidas. Raios partam esta nossa merda que não sai do sapato!

        Reaparece nos entretantos, percorre as vastas carruagens que compõem o metro enquanto escarnece da imensa multidão, pessoa por pessoa, antecipando movimentos, gostos, texturas e provocando também ele pequenas convulsões em civis circundantes, civis esses que se afastam procurando ocupar os anteriores espaços inexistentes. Pára metodicamente no mesmo sítio de sempre e recomeça o seu dia-a-dia, como todas as outras pessoas.

 

No final das contas a verdadeira questão que se coloca é: O porquê do acordeão ao colo?



publicado por Janinha às 21:44
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